Archive for March, 2010|Monthly archive page

Obs rápida…

Todos esses textos abaixo (os de março) foram escritos durante o período Julho-Fevereiro de 2009-2010 e postados no meu antigo blog http://www.paulabruno.wordpress.com. Porém, eu quis mudar o endereço e fiz esse outro. Achei que seria bom que os outros textos estivessem aqui também. E até alguns comentários copiei e colei pra ficar registrado. 🙂

Meia-noite

Luz apagada
Teto
Quatro paredes
Ontem e hoje
Concreto e abstrato
Deixa eu pensar
No amanhã

Ainda bem que cabelo cresce

Essa história começa na sala de aula do meu primário. É, fazem uns aninhos. Tempo bom, em que todos ficavam pouco tempo na escola e metade desse tempo era diversão. Uma das diversões era brincar de massinha.
Certa vez, quando os alunos estavam prestes a ir embora, porém envolvidos com seus respectivos bonecos, florezinhas ou formas geométricas de massinha, eu olhei para o lado e vi um coleguinha colocando sua obra de arte na cabeça. Não hesitei em imitá-lo. Grande idéia a que eu tive! E não demorou muito para eu me surpreender com tal atitude. Aquela massa enorme não desgrudava do meu cabelo. Mas do dele, desgrudava sim. Como pôde? E agora? O que fazer? Apenas esperar a mamãe chegar e chorar em seu ombro. Ela, nervosa com a situação, me levou até a casa da vovó, que tinha um salão de beleza e poderia ajudar a resolver o problema.
Evidente que uma parte do meu brinquedinho moldável conseguiu sair de minhas madeixas. Mas o difícil foi tirar os pequenos restos, colados fios a fios, como um penteado de gel. A solução mais radical teve que ser tomada: a de cortar a minha linda franja. Fiquei com um ziguezague na testa. Não por causa da minha avó, que sempre foi uma excelente cabeleireira, mas devido à situação embaraçosa, literalmente.
Depois disso eu comprei um Super Trunfo da Audi e fiz meus companheiros comprarem uns de outros tipos também, pra nós termos o que fazer quando a Tia Beth falasse: “hora de brincar de massinha”. O legal foi todos se unirem ao meu trauma.

Alguns anos se passam. Papai e mamãe estavam planejando uma festa para sua filhinha aqui. E mamãe, muito detalhista e cuidadosa, quis deixar o cabelinho da Paulinha crescer, para cortar só quando estivesse próximo a festa. E estava chegando o dia de ir ao salão da vovó, quando a Angélica (uma moça que trabalhava lá em casa), decidiu cortar a minha franja (sim, só a franja). Eu, inocente, deixei. E para dizer a verdade eu nem liguei muito para tal atitude bondosa. Mas mamãe, quando chegou do trabalho e olhou para mim, tomou um susto. Imagina por quê? Ficou uma coisa linda mesmo. Que azar. Mas pelo menos papai me achou linda de verdade nas fotos do aniversário. Fiquei mais aliviada.

Os anos novamente se passaram e certo dia, eu tive que tirar foto 3×4 para a carteirinha do último ano do colégio. Eu estava cismada com meu cabelo, que estava precisando muito de um corte. A minha franja estava grande e eu gosto dela de um tamanho assim, certinho. A sorte é que o lugar que tira foto é perto de um salão que eu já fui uma vez para fazer uns reflexos para mudar o visual, sabe como é. Então, eu passaria neste salão, pediria para o Jorge aparar minha franja, apenas por cinco reais. Eu disse sorte? Valeu Jorge, adorei. Tive que fingir. Mas que raiva! O que foi que ele fez? Só sei que pegou a tesoura de qualquer jeito, uns dois dedos pra segurar o cabelo e pronto. Que coisa torta, horrível e pequena, como eu odiei. Não queria contar essa parte, mas é que eu sou muito sensível e chorei. E era pra ter chorado mais quando vi a foto que saiu. Pois é, o resultado foi que eu pedi ajuda a um amigo para retirar a foto já plastificada da carteirinha do ano passado para servir para a carteirinha desse ano. Tarefa difícil, mas deu certo.
O pior é que foram umas 5 fotos iguais que eu não usei pra nada e acabei guardando na minha carteira, talvez por pena do dinheiro do meu pai.

Outro certo dia, em uma das vezes que eu fui ao Café com Sonho, (uma lanchonete lá na Gama Filho, onde eu sempre comia) deixei cair o plástico que tinha aquelas benditas 5 fotos. Algum ser deve ter achado o tesouro depois de eu já ter ido embora, e dado para o gerente da loja guardar. Geralmente quando isso acontece, a foto, identidade, seja lá o objeto perdido que for, fica a mostra para todos que visitam o lugar, com o objetivo de o dono aparecer. Por discrepância do destino, não é que fiquei uns dias comendo em outros lugares, levando pãezinhos saudáveis para o colégio e consequentemente, sem ir ao Café com Sonho? Sim. E quando finalmente apareci lá, a moça do caixa disse para mim: “olha, acho que isto aqui é seu.” Tadinha, já devia estar cansada de olhar aquilo. Eu nem tinha sentido falta da perda. Fiquei assustada e disse: “não acredito, que coisa horrível, hahahal!”, antes mesmo de agradecer a atitude bondosa daquela jovem.
Ainda tive o constrangimento de ouvir da coordenadora do colégio: “Seu retrato está lá na lanchonete faz um tempo, hein. Você viu? Eu esqueci de te falar. Já pegou?”.

Por essas e outras que eu devo ter a mania de ajeitar a franja o tempo todo. Muitos acham irritante, mas quem sabe não é psicológico?

Confissão

Eu não falei
O quanto eu quero bem você
Só deixei entre vírgulas
O quanto eu quero você, bem

Lição de hoje

Ela olhava as enxadas junto à plantação vizinha, a costura da mãe, os calos no dedo do irmão, o reflexo sofrido no espelho quebrado pendurado no corredor entre dois cômodos e embrulhava esse cotidiano em pensamentos solitários e fortes. A certeza de que podia ir além talvez fosse o mais forte.
A mocinha moradora do campo esforçava-se desde que viu fé nos seus próprios olhos. E de pequena idade, ela estava começando a acreditar.
Simultaneamente a isto, a esperança sussurrava em seu ouvido: “Não desista da certeza de felicidade que está presente em sonhos futuros”. Depois dessa consciência de tempo foi até fácil aprender pretérito, presente e futuro.
Ter conseguido chegar ao último ano colegial já era raridade no pequeno bairro. Mas contentar-se com isso não a faria chegar ao contentamento maior: o de estudar na Federal da cidade metropolitana.
Conseguira. A antecedência a vitória foi regada as xerox’s sempre que possível e anotações até em papel de pão, que fosse. Muito suor e dedicação.
Os dias acabaram sendo monótonos nessa vida de passa trem, ônibus e o que a transportasse estava com ela a caminho. A distância realmente complicava a rotina. O que não se complicavam, eram os sonhos. Ai deles. Estavam lado a lado da inseparável determinação.
A paixão por literatura e português era tão clichê em sua vida, quanto ler declarações exageradas de amor nas poesias do século XVIII.
Abrindo parênteses, eu acho que sonhos são tão individuais que o adjetivo de grande ou pequeno só pode ser dado a eles por quem os têm.
Eis o grande sonho em questão (a sonhadora me permitiu adjetivar): Dar aulas.
Tinha realmente a certeza de que ensinaria aos alunos mais do que falar e escrever a língua de origem. Ensinaria mil coisas de forma positiva, claro. Até porque, ela era tão otimista que o único negativo na sua vida era algumas contas endividadas.
Muitas realizações antes e depois dos 4 anos de estudo universitários. Bastantes experiências acumuladas, além do perfeito domínio da Língua a que falava Carlos Drummond, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector. Como ama o Modernismo.
Porém, nunca esquecera da família. Não gostava de matemática, mas aprendeu a dividir tão bem que os pais agradeciam com carinhos em dobro. É claro que sua vida estabilizou-se a ponto de poder pagar as dívidas, comprar casa, ajudar os pais e, encontrar o amor da vida também é estabilidade. Sim, no seu terceiro ano universitário um companheiro entrara na sua vida para não sair mais. A união de ambos trouxe uma união ainda maior na casa, com a chegada de dois filhos ansiosos por continuar o sonho.
A professora aqui descrita encanta tanto seus alunos, que estes, foram motivados pelo aprendizado, a narrar essa lição de vida.

“O que te sobra além das coisas casuais?”

Quando escuto essa frase tocar no seqüencial de músicas do Los Hermanos, eu paro. Paro porque me intimida. Não sei se parece muito com a interpretação que deveria ser dada a música como toda, (talvez não mesmo) mas se coisas casuais são rotinas, o que me sobra é criatividade. Ou pelo menos deveria sobrar. Inovar é mágico num mundo em que a correria é monótona e a diferença acaba se tornando sutil.

Simbólico

Nessa flor
A sensibilidade dos sentimentos
Nesse mar
A grandeza de amar
Nesse túnel
Infinitos corações sonhadores
Nessa estrada
Caminhos tortos e perfeitos
Na Areia
Incontáveis descobertas
Nos pássaros
Liberdade
Nessa vida
Flor, mar, túnel, estrada, areia, pássaros

Farol deserto

Ela tirou os chinelos. Molhou os pés na areia com o mesmo cuidado com que segurou seu filho nos braços pela primeira vez. Respirou sozinha o ar da praia. Correu o horizonte com os olhos. Andou beira-mar a sorrir. Sentiu cheiro de algodão doce quando olhou as nuvens. Mergulhou. Encontrou a paz e foi embora sem os chinelos.

Algum meio, um meio

A dúvida já estava sobre o sentar. Sentei. Lá veio ela de novo. Escrever tudo ou metade? Sem dúvidas, conclusão óbvia: Não teria como dividir pensamentos. Sou completa e complicada para conseguir dividir em palavras a metade de algo qualquer que eu já saiba do todo. Então, o único meio que tenho para expressar é o inteiro.
A música que descobri ontem e o momento há três anos atrás que ela me narrou. Superficial se eu citasse só o que a letra da melodia me fez lembrar. O motivo pelo qual veio a memória foi importante: o escutar. E o tal momento é quase um inteiro em mim porque agora, pode-se acrescentar um detalhe: a música. Torna-se o todo, pois o todo é tudo uma mistura.

Memória tímida

Não esqueci apenas do perfume
Porque não blusa, calça, sapato, meia e hora-data pontual?
Tão direto assim
Nem mesmo o último encontro