Ainda bem que cabelo cresce

Essa história começa na sala de aula do meu primário. É, fazem uns aninhos. Tempo bom, em que todos ficavam pouco tempo na escola e metade desse tempo era diversão. Uma das diversões era brincar de massinha.
Certa vez, quando os alunos estavam prestes a ir embora, porém envolvidos com seus respectivos bonecos, florezinhas ou formas geométricas de massinha, eu olhei para o lado e vi um coleguinha colocando sua obra de arte na cabeça. Não hesitei em imitá-lo. Grande idéia a que eu tive! E não demorou muito para eu me surpreender com tal atitude. Aquela massa enorme não desgrudava do meu cabelo. Mas do dele, desgrudava sim. Como pôde? E agora? O que fazer? Apenas esperar a mamãe chegar e chorar em seu ombro. Ela, nervosa com a situação, me levou até a casa da vovó, que tinha um salão de beleza e poderia ajudar a resolver o problema.
Evidente que uma parte do meu brinquedinho moldável conseguiu sair de minhas madeixas. Mas o difícil foi tirar os pequenos restos, colados fios a fios, como um penteado de gel. A solução mais radical teve que ser tomada: a de cortar a minha linda franja. Fiquei com um ziguezague na testa. Não por causa da minha avó, que sempre foi uma excelente cabeleireira, mas devido à situação embaraçosa, literalmente.
Depois disso eu comprei um Super Trunfo da Audi e fiz meus companheiros comprarem uns de outros tipos também, pra nós termos o que fazer quando a Tia Beth falasse: “hora de brincar de massinha”. O legal foi todos se unirem ao meu trauma.

Alguns anos se passam. Papai e mamãe estavam planejando uma festa para sua filhinha aqui. E mamãe, muito detalhista e cuidadosa, quis deixar o cabelinho da Paulinha crescer, para cortar só quando estivesse próximo a festa. E estava chegando o dia de ir ao salão da vovó, quando a Angélica (uma moça que trabalhava lá em casa), decidiu cortar a minha franja (sim, só a franja). Eu, inocente, deixei. E para dizer a verdade eu nem liguei muito para tal atitude bondosa. Mas mamãe, quando chegou do trabalho e olhou para mim, tomou um susto. Imagina por quê? Ficou uma coisa linda mesmo. Que azar. Mas pelo menos papai me achou linda de verdade nas fotos do aniversário. Fiquei mais aliviada.

Os anos novamente se passaram e certo dia, eu tive que tirar foto 3×4 para a carteirinha do último ano do colégio. Eu estava cismada com meu cabelo, que estava precisando muito de um corte. A minha franja estava grande e eu gosto dela de um tamanho assim, certinho. A sorte é que o lugar que tira foto é perto de um salão que eu já fui uma vez para fazer uns reflexos para mudar o visual, sabe como é. Então, eu passaria neste salão, pediria para o Jorge aparar minha franja, apenas por cinco reais. Eu disse sorte? Valeu Jorge, adorei. Tive que fingir. Mas que raiva! O que foi que ele fez? Só sei que pegou a tesoura de qualquer jeito, uns dois dedos pra segurar o cabelo e pronto. Que coisa torta, horrível e pequena, como eu odiei. Não queria contar essa parte, mas é que eu sou muito sensível e chorei. E era pra ter chorado mais quando vi a foto que saiu. Pois é, o resultado foi que eu pedi ajuda a um amigo para retirar a foto já plastificada da carteirinha do ano passado para servir para a carteirinha desse ano. Tarefa difícil, mas deu certo.
O pior é que foram umas 5 fotos iguais que eu não usei pra nada e acabei guardando na minha carteira, talvez por pena do dinheiro do meu pai.

Outro certo dia, em uma das vezes que eu fui ao Café com Sonho, (uma lanchonete lá na Gama Filho, onde eu sempre comia) deixei cair o plástico que tinha aquelas benditas 5 fotos. Algum ser deve ter achado o tesouro depois de eu já ter ido embora, e dado para o gerente da loja guardar. Geralmente quando isso acontece, a foto, identidade, seja lá o objeto perdido que for, fica a mostra para todos que visitam o lugar, com o objetivo de o dono aparecer. Por discrepância do destino, não é que fiquei uns dias comendo em outros lugares, levando pãezinhos saudáveis para o colégio e consequentemente, sem ir ao Café com Sonho? Sim. E quando finalmente apareci lá, a moça do caixa disse para mim: “olha, acho que isto aqui é seu.” Tadinha, já devia estar cansada de olhar aquilo. Eu nem tinha sentido falta da perda. Fiquei assustada e disse: “não acredito, que coisa horrível, hahahal!”, antes mesmo de agradecer a atitude bondosa daquela jovem.
Ainda tive o constrangimento de ouvir da coordenadora do colégio: “Seu retrato está lá na lanchonete faz um tempo, hein. Você viu? Eu esqueci de te falar. Já pegou?”.

Por essas e outras que eu devo ter a mania de ajeitar a franja o tempo todo. Muitos acham irritante, mas quem sabe não é psicológico?

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5 comments so far

  1. Vanessa on

    HAHAHAHAHAHAHA! Muito maneiro. Eu ri. 😛

  2. Vinícius Antunes on

    Senhorita Paula,
    Serei fatídico: fico imaginando os carecas, como o meu pai, que lêem esse seu texto e se revoltam com a máxima:”ainda bem que cabelo cresce”. Cresce pra você, nojentona, os meus já estão pifando nas entradas.

  3. Marcela on

    hahaha.. parece que toda menina tem alguma história trágica relacionada a cabelos, mas como vc disse, ainda bem que eles crescem..
    beijão

  4. Felipe Azevedo on

    KKKKK Muito bom Paulinha!!!
    Gostei muuuuuito do seu blog 😉
    beijão!!!

    Obs. suas fotos no perfil do bLog e do Twitter estão lindas (com todo respeito)hahaha

  5. Estevão on

    Até que me surpreendi com o texto!
    Parabéns!
    Eu é que não tenho problemas com o cabelo. Como vc sabe eu o lovo apenas tres (ou duas) vezes na semana!!
    hahahaha


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