Archive for the ‘História em quadrinhos imaginários’ Category

Lição de hoje

Ela olhava as enxadas junto à plantação vizinha, a costura da mãe, os calos no dedo do irmão, o reflexo sofrido no espelho quebrado pendurado no corredor entre dois cômodos e embrulhava esse cotidiano em pensamentos solitários e fortes. A certeza de que podia ir além talvez fosse o mais forte.
A mocinha moradora do campo esforçava-se desde que viu fé nos seus próprios olhos. E de pequena idade, ela estava começando a acreditar.
Simultaneamente a isto, a esperança sussurrava em seu ouvido: “Não desista da certeza de felicidade que está presente em sonhos futuros”. Depois dessa consciência de tempo foi até fácil aprender pretérito, presente e futuro.
Ter conseguido chegar ao último ano colegial já era raridade no pequeno bairro. Mas contentar-se com isso não a faria chegar ao contentamento maior: o de estudar na Federal da cidade metropolitana.
Conseguira. A antecedência a vitória foi regada as xerox’s sempre que possível e anotações até em papel de pão, que fosse. Muito suor e dedicação.
Os dias acabaram sendo monótonos nessa vida de passa trem, ônibus e o que a transportasse estava com ela a caminho. A distância realmente complicava a rotina. O que não se complicavam, eram os sonhos. Ai deles. Estavam lado a lado da inseparável determinação.
A paixão por literatura e português era tão clichê em sua vida, quanto ler declarações exageradas de amor nas poesias do século XVIII.
Abrindo parênteses, eu acho que sonhos são tão individuais que o adjetivo de grande ou pequeno só pode ser dado a eles por quem os têm.
Eis o grande sonho em questão (a sonhadora me permitiu adjetivar): Dar aulas.
Tinha realmente a certeza de que ensinaria aos alunos mais do que falar e escrever a língua de origem. Ensinaria mil coisas de forma positiva, claro. Até porque, ela era tão otimista que o único negativo na sua vida era algumas contas endividadas.
Muitas realizações antes e depois dos 4 anos de estudo universitários. Bastantes experiências acumuladas, além do perfeito domínio da Língua a que falava Carlos Drummond, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector. Como ama o Modernismo.
Porém, nunca esquecera da família. Não gostava de matemática, mas aprendeu a dividir tão bem que os pais agradeciam com carinhos em dobro. É claro que sua vida estabilizou-se a ponto de poder pagar as dívidas, comprar casa, ajudar os pais e, encontrar o amor da vida também é estabilidade. Sim, no seu terceiro ano universitário um companheiro entrara na sua vida para não sair mais. A união de ambos trouxe uma união ainda maior na casa, com a chegada de dois filhos ansiosos por continuar o sonho.
A professora aqui descrita encanta tanto seus alunos, que estes, foram motivados pelo aprendizado, a narrar essa lição de vida.

Farol deserto

Ela tirou os chinelos. Molhou os pés na areia com o mesmo cuidado com que segurou seu filho nos braços pela primeira vez. Respirou sozinha o ar da praia. Correu o horizonte com os olhos. Andou beira-mar a sorrir. Sentiu cheiro de algodão doce quando olhou as nuvens. Mergulhou. Encontrou a paz e foi embora sem os chinelos.